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Fazendas de café


Viviane Kulczynski/AE

Elas já foram cenário de novela, ocuparam as páginas da literatura clássica e agora ajudam a alavancar o turismo no interior de São Paulo. Ao receber visitantes e até mesmo hóspedes, propriedades centenárias como a Capoava, em Itu, e a Pinhal (foto), em São Carlos, resgatam o passado do País e dão uma verdadeira aula de História

Pinhal exala ares do auge do ciclo cafeeiro
Toques de modernidade, como chuveiro quente e luz elétrica, não tiram a magia de regressar no tempo

SÃO CARLOS - O tempo parece ter estacionado na Fazenda Pinhal, em São Carlos, a 236 quilômetros de São Paulo. Mais de um século e meio depois da construção da casa-grande, o local exala os mesmos ares do auge do ciclo do café. Não fossem a pintura impecável dos prédios e alguns "toques de modernidade", como luz elétrica e chuveiro de água quente, poderia imaginar-se em pleno século 19. Naquele período, os viajantes que seguiam para as minas de Mato Grosso faziam uma parada na fazenda. Antes de seguirem viagem, eles dormiam nas alcovas do casarão erguido pelo coronel Carlos José Botelho entre 1831 e 1832.
Tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), em 1981, e pelo Patrimônio Histórico Nacional, em 1987, a Pinhal hoje recebe seus hóspedes com muito charme. É a quinta geração dos Arruda Botelho que se mantém à frente da propriedade e se empenha em conservar detalhes do passado do Conde e da Condessa do Pinhal. Detalhes que se espalham não apenas pela casa-grande, mas também pela senzala, pelo terreiro - que serve tanto de estacionamento como de "palco" para cantorias noturnas em volta da fogueira -, pela antiga tulha e pelo engenho.


Lugar servia de pouso a viajante que ia para Mato Grosso

A história da Fazenda Pinhal se confunde com a da expansão da cultura cafeeira no Estado e também com a fundação da cidade de São Carlos, em 1857, com a ajuda do Arruda Botelho mais ilustre - Antonio Carlos -, o conde. O nome do lugar foi emprestado do santo padroeiro da família, São Carlos de Borromeu, cuja imagem ocupou por décadas o nicho central da capela da sede - hoje ela está na Catedral da cidade.

E é justamente pela capela que começa o passeio guiado pela fazenda. O altar de madeira tem características barrocas. De um lado está o espaço reservado para a família. Escravos, tropeiros e colonos assistiam ao culto no salão principal, de frente para o pequeno templo. Ainda se celebram missas e casamentos ali, mas com o espaço democraticamente dividido entre os presentes.

Em cada cômodo, o visitante vê relíquias da família, como uma cesta de palha usada pela condessa (Ana Carolina) em suas viagens de trem. Na sala de reunião dos homens, há uma tela assinada por Benedito Calixto, que toma toda a parede e mostra a área da fazenda em 1900. Na sala das mulheres, encontra-se um piano, no qual Ana Carolina tinha aulas e realizava os saraus para as amigas. A sala de jantar exibe jogos de louças centenários e belas cristaleiras.

Restauro - Foram necessários dez anos para restaurar a fazenda e transformá-la em pousada. Há dois anos turistas contam com 15 quartos para hospedagem - três deles na histórica sede, todos decorados com mobília de época. Com sorte, pode-se pernoitar no quarto que a Condessa do Pinhal ocupou depois de viúva.

A antiga senzala foi transformada em salão de eventos e abriga ainda a cozinha e uma vendinha. Um dos lugares preferidos dos hóspedes é o pomar.

Todo murado, o local foi idealizado pela condessa, com 120 mil metros quadrados de área, de largas alamedas de jabuticabeiras (fruta preferida do marido) permeadas por caramboleiras e jatobás, entre outras árvores. Neste mesmo pomar, ainda hoje corre água pelo caminho que a condessa chamava de "escada da saúde". Trouxe a idéia de uma viagem pela Europa e acreditava que subir as dezenas de degraus da escadaria, molhando os pés descalços, tinha efeito terapêutico - na dúvida, siga os passos da condessa, que faleceu aos 104 anos! Anexa à fazenda está a Mata Botafogo, onde é possível fazer caminhadas e completar a visita com um refrescante banho de cachoeira. (V.K. e D.C.)



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